quarta-feira, 21 de maio de 2008

As veias abertas, a dependência e a geografia da fome na América Latina‏

Os brasileiros Rui Mauro Marini e Josué de Castro e o uruguaio Eduardo Galeano nos dão, juntos, uma bela síntese do que fomos, somos e podemos ser: Os brasileiros Rui Mauro Marini e Josué de Castro e o uruguaio Eduardo Galeano nos dão, juntos, uma bela síntese do que fomos, somos e podemos ser
Em 1970, o uruguaio Eduardo Galeano, terminava de escrever um dos maisdeliciosos e profundos livros sobre nosso continente: As veias abertas daAmérica Latina.Entre as várias argumentações desenvolvidas por ele, estava a constatação deque a América Latina era o território escravizado pelos EUA em seu afã deseguir hegemônico no cenário imperialista mundial.Galeano explica, como Josué de Castro o havia feito há alguns anos, em seulivro Geografia da Fome, que o subdesenvolvimento não podia ser entendidofora da lógica geral de funcionamento do modo de produção capitalista. Diziao autor: "nossa derrota esteve sempre implícita na vitória alheia, nossariqueza gerou sempre a nossa pobreza para alimentar a prosperidade dosoutros: os impérios e seus agentes nativos. Na alquimia colonial eneo-colonial, o outro se transforma em sucata e os alimentos se convertem emveneno."Contemporâneo de Galeano, Marini, um mestre e tanto, que como os outros nãoseparava teoria de ação revolucionária, nem prática de reflexão concretasobre o real e o possível dentro do real de ser transformado, escrevia nadialética da dependência, que o resultado do desenvolvimento capitalistaseria a miséria de nossos povos.Nos ensinam esses mestres, que a característica histórica da América Latinafoi, e é, a de ter suas riquezas naturais, energéticas e vitais (a partir dopulsar da força de trabalho que habita na continente), apropriadasprivadamente pelos detentores hegemônicos do modo de produção-acumulaçãocapitalista central. Esse servir, baseado na perda do que é próprio, sesustenta nos históricos vínculos de dependência e subordinação centrados nopoder dos países hegemônicos sobre a periferia.Os dados atuais (CEPAL) da América Latina nos mostram não só o quanto vemsofrendo ao longo da história a maior parte de nossos sujeitos-sujeitadospelo capital, mas, também, o terreno fértil da continuada superexploração dotrabalho no continente. Um mecanismo que nos anos 40-60 era particular docontinente e que agora evidencia sua projeção global.América Latina faz escola na reprodução ampliada da lógica animal docapital, cujos donos irracionais vivem bem, porque sujeitam muitos a viveremmal. É do roubo do tempo que falamos. Cada vez mais, o capital global, roubamais tempo, ao pagar menos salários e quebrar todos os direitostrabalhistas, como forma de não romper seu circulo vicioso da riquezacentrado na pobreza da condição humana.Esse mecanismo de extrair sobre-trabalho do mesmo tempo de trabalho deoutros sujeitos em outras partes do mundo, foi a característica particularencontrada pelo capitalismo periférico para compensar suas perdas nosmercados mundiais, cujo centro de produção de valor e de preço de mercadoestava nas mãos de capitalistas centrais, mais poderosos que os latinos.Enquanto os trabalhadores centrais eram considerados consumidores, uma vezque a produção tinha como vínculo o consumo-mercado interno e externo, ostrabalhadores da periferia, como nós os latinos, não eram consumidoresdiretos dos bens produzidos, uma vez que o objetivo central do capitallatino era, e é, produzir para exportar.Essa diferença do modo de funcionamento da produção e da circulação demercadorias foi o que permitiu uma forma particular de acumulação privada docapital latino, frente à sua forma geral de funcionamento mundial.É por meio da economia política que Marini nos ensina o quanto a AméricaLatina por ser rica tinha sua desgraça centrada na debilidade política.Elemento que a faria ser pobre nas condições objetivas de realização dasobrevivência de sua população, dado o poder hegemônico dos países centraisem ditar as regras (inter)nacionais das relações econômicas mundiais.Como Galeano e Marini, Josué de Castro também reforçava o fato de que osubdesenvolvimento é o resultado de um processo de desenvolvimento centradonos grandes, a partir das múltiplas formas de roubo de nossas riquezas.América Latina sem identificação soberana e autônoma consigo mesma, frente àhegemonia dos centros.Dizia o mestre Josué: "O subdesenvolvimento não é, como muitos pensamequivocadamente, insuficiência ou ausência de desenvolvimento. Osubdesenvolvimento é um produto ou um subproduto do desenvolvimento, umaderivação inevitável da exploração econômica colonial ou neocolonial, quecontinua se exercendo sobre diversas regiões do planeta".Essas veias abertas que fazem com o que o capital avance na intensificaçãoda exploração do trabalho e da apropriação privada dos recursos naturais denossa América, chega no século XXI, com suas marcas visíveis sobre o corpodos povos latinos.Atualmente somos 580 milhões de latino-americanos (em 2010 seremos 594milhões). 79,1% desta população vive nas cidades (458 milhões) e 120 milhõesvivem na área rural. Destes, 35,1% vivem em situação de pobreza. Outros 12,7% vivem em situação de indigência (miséria absoluta). Estamos falando de umtotal de 203 milhões de pobres e 73 milhões de indigentes.Um destaque importante é relativo ao nível da pobreza e indigência dapopulação rural latino-americana. Quando comparados os números com a médiatotal da população vemos que a pobreza chega a 53,6% e a indigência englobaum total de 28,7% de nossa população camponesa.Somos um número expressivo de marginais em um território rico. Os condenadosda terra, não por desígnios divinos, mas por ordens animalescas advindas deexpropriadores privados das riquezas soberanas, autônomas, que por mais quenos pertençam, ainda não são nossas. Falamos de um total de 276 milhões depessoas vivendo em situações marginais num continente que permanece, apóslongos séculos de exploração e expropriação, rico em recursos e pobre nopoder de distribuição para si mesmo, e seus sujeitos, desta riqueza.O imperialismo encontra na América Latina, um terreno fértil de reproduçãode suas mazelas político-econômico-ideológicas: o subimperialismo. Acapacidade de reproduzir, a partir do mando dos países centrais, a mesmalógica perversa de apropriação, via Estados soberanos nacionais, dasriquezas dos países politicamente mais débeis do continente, a partir dopoder das economias mais fortes. Um círculo vicioso da pobreza capitalista,centrada na acumulação da riqueza de nossos bens. Os Estados centrais, emparceria com os Estados latinos, roubando em nome do capital, os recursos donosso território e jogando à mendicância parte expressiva de nossostrabalhadores, povos autônomos, seres para si, fora de si mesmos, em seucontinente.Em 2010, 276 milhões constituirão a PEA, distribuída entre 163 milhões dehomens e 113 milhões de mulheres em idade produtiva para estar incluída nosetor formal da economia. Entre estes, teremos um total de 202 milhões dejovens com 15 a 34 anos de idade. Destes jovens, 100 milhões são homens eoutros 102 milhões são mulheres. A população juvenil latina corresponde a33,9% da população total e 73,9% da população apta a trabalhar.Ao pensar as características da superexploração na América Latina hoje,temos que ver quanto o capital, a partir dessa expressiva quantidade dejovens (homens e mulheres e entre eles a distinção de etnias/raças), contacom um terreno fértil de apropriação privada das riquezas a partir daintensificação da exploração do trabalho.Todos estes três autores discutiram o texto-contexto latino, a partir dograu de desenvolvimento das forças produtivas capitalistas na América Latinae da participação desta no mundo do capital. Esses mestres eram implacáveisao dizer que a única saída possível era, e é o socialismo, rumo aocomunismo.Josué de Castro sustentava que sem violência não era possível frear aviolenta ação capitalista. Marini dizia que a revolução não deveria serpensada a partir das táticas viáveis do reformismo desenvolvimentista nocontinente. Galeano mostrava que as veias abertas, para permitirem umalivre, e real, circulação das riquezas e dos povos de Nossa América,deveriam se livrar desse câncer circulatório e reprodutivo que é o modo defuncionamento do aparelho capitalista. Os três mestres juntos nos dão umabela síntese do que fomos, somos e podemos ser. Para ser, não devemospermitir que nosso sangue continue absorvido pelo vampiro que há anos suga oque de mais rico e originário temos: a história dos povos latinos, anteriorao capital e para além dele.

Nenhum comentário: